segunda-feira, março 13, 2006

Loira de bigode

Eu rastejo sob o sol.
Tô ressecado até o osso.
Me arrasto sobre a areia.
Quase não tenho forças.
Meus dedos penetram o chão seco.
A língua, seca que nem um sabugo,
lixa os dentes com o atrito.
Água!
Quero água!
Minha garganta tem até trincas.
O céu da boca se esfarela.
Parece que tô mastigando pó.
Quero água!
Eita ressaca feladaputa, seo menino!
Porre brabo, daqueles de baixar o Pai Otávio.
Bebí daquela vez como se fosse a última!
Tava tudo muito bacana,
Então bebí cachaça com amburana!
Só lembro que tava dançando uma rumba,
Quando uma loira de bigode me beliscou a bunda.
E, de madrugada, depois que saí do empório,
Me viram beijando uma viúva no velório.
E só percebí que o negócio era sério,
Quando já estava no cemitério!
E agora, além dessa sede danada,
Ainda tem uma viúva apaixonada.
Meu Deus, como é que pode?
Será que beijei a loira de bigode?

sexta-feira, março 10, 2006

Mané Poeta


Queria ser obstetra,
virei dublê de poeta
!


E o proletariado, coitado
não se junta e não se une,
não é por desorganização,
É porque falta dinheiro prá condução!

O povo unido, é muito fedido!
O desodorante, sempre vencido!

E só fala de televisão,
Gugu, Ratinho e Faustão!

Discute a cena da novela,
E o resultado do jogão.
Esquece o vazio da panela
E o caso do mensalão!

Não tem nada pra comer,
Mas faz um novo carnê!
Acha que hoje é dia de sorte,
Porque chegou o vale-transporte!

E, se na mesa tem feijão,
É porque entregaram o vale-refeição!

Não se preocupa que a filha é uma putinha,
Só tem medo da fofoca da vizinha!

Se o filho é maconheiro?
-Mas isso dá muito dinheiro!

E ri, com os dentes cariados,
Quando chega um feriado:
-Vamo fazê um grande churrascão!
-Com o boi atropelado pelo caminhão!

domingo, março 05, 2006

O Faquir do Teclado

Essa semana me ligou o editor de uma revista.

-Seo Mané, nós queremos lhe contratar prá escrever na nossa revista!

E aí eu perguntei se ganharia alguma coisa.

-Nós registramos, pagamos décimo-terceiro salário, férias, sindicato e vale refeição.

-Uêxa! Então não aceito!

-Mas, Seo Mané, o salário é muito bom!

-Mas eu só sei escrever de graça, Seo Editor! E só escrevo quando tô cum fome! Sou o faquir do teclado.

De graça e com fome, que é prá ter mais inspiração!

Hí! Hí! Hí!

E ninguém tem que pagar nada!

Aí o Seo Editor falou que assim num pode.

-O sindicato não vai aceitar!

-Nem eu! Hí! Hí! Hí!

Eu fui treinado na guerrilha colombiana.

Aguento quinze dias sem comer, quinze dias sem beber!

E a vida inteira sem receber!

-Mas Seo Mané, pensa no seu direito!

-Eu sou canhoto! Só penso no esquerdo!

Hí! Hí! Hí!